O dilema do Secretário Beltrame

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Acabo de ler entrevista no El Pais do Secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Maria Beltrame. Já tive a oportunidade de dizer muitas vezes, ao longo dos últimos anos, que respeito o Secretário. Também sou um dos que reconheceram o avanço e a importância histórica da experiência das UPPs. Elas representaram, no momento em que surgiram, uma virada importante em direção a uma polícia de proximidade. Mas essa entrevista me incomodou e explico a razão.

Ando cansado de uma certa auto indulgência do Secretário. Ele diz a mesma coisa há anos, com algumas variações. Reconheço e sou solidário com a solidão e a angústia que vive. O seu diagnóstico faz muito sentido, segurança é muito mais do que polícia, precisa ser efetivamente uma política de estado. Mas ele é secretário de estado e, nessa condição, tem que assumir a responsabilidade, o ônus e o bônus desse lugar. Senão estará servindo apenas ao amortecimento da mesma política de segurança que diz criticar, focada na guerra às favelas e no combate a um “inimigo” interno, ao jovem “traficante”, quase sempre negro, descalço e sem camisa, nem sempre armado e nem sempre envolvido com o comércio de drogas. Com frequência apenas um morador que cruzou na frente de uma polícia em busca de um inimigo.

Os índices de mortes decorrentes de operações policiais, inclusive o alto número de mortes de policiais, mostra o quanto estamos longe da segurança dos sonhos do secretário. Nossa polícia sempre matou e continua a matar muito. Os esforços de muitos profissionais de segurança pública, policiais, vários oficiais da PM e delegados da Polícia Civil quase sempre não encontram apoio no governo. O preço é uma polícia estigmatizada que não encontra apoio nem legitimidade nas comunidades onde atua, nem sequer na sociedade em geral. Uma polícia da qual quase sempre se quer distância. Uma injustiça com muitos bons policiais.

Reconheço os problemas estruturais e o Secretário Beltrame vai contar com o meu apoio sempre que quiser efetivamente bancar essa disputa, no interior do estado. O problema é que precisa estar disposto a fazer isso e não reiterar mais uma vez tudo o que já conhecemos. As Olimpíadas não podem ser desculpa para o conformismo. A violência não faz parte desse jogo.

Se ele como secretário de estado, membro do governo, não conseguiu durante todo esse tempo exercer o papel político de mudar essa realidade — tendo se deixado reduzir ao papel do bom chefe de polícia, cheio de boas intenções — talvez já devesse ter pedido para sair há muito tempo e denunciado com o seu gesto a paralisia e a falta de vontade do estado de efetivamente rever essa política. Continuar nesse lugar o faz parte do problema e não da solução.

 

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Autor: Atila Roque

Historiador e Cientista Político

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