O Abate

A palavra tem poder. Sabemos disso desde que habitamos o mundo. Poetas e escritores jogam com esse poder a favor da beleza e das paixões. Articular sentimentos e desejos, participar do debate público, expressar pêsames e votos de felicidade, descrever e reinventar o mundo, narrar trajetórias e, principalmente, afirmar cores e identidades, estão entre os usos mais virtuosos das palavras.  A língua é minha pátria, ensina Caetano Veloso, poeta. Por isso devemos sempre estar atentos à sua degradação, especialmente na esfera pública. A degradação da palavra é um sinal de que nos aproximamos perigosamente da barbárie e da desumanização.

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Quando aceitamos como natural que certas palavras sejam retiradas do seu contexto original e comecem a fazer parte do debate a respeito de políticas públicas significa que já começamos a perder contato com o princípio fundamental da dignidade humana, acima de qualquer coisa. Por isso não posso deixar de me espantar com a entrada na discussão sobre uso da força letal por parte das polícias da palavra “abate” para se referir a execução imediata por agentes do estado de pessoas que supostamente oferecem risco pelo porte ostensivo de armas.

O fato em si dessa discussão acontecer com ares de normalidade na tv e nos jornais –  com falas de especialistas, juristas, supremos magistrados e futuro ministro da justiça – já deveria ser objeto de profundo desgosto e repúdio por parte da sociedade. Aplicar execução sumária fora de situações de guerra é uma clara violação da constituição brasileira que não prevê pena de morte e admite o uso da força letal apenas em situações extremas (ameaça imediata a vida). Usar “abate”, uma palavra aplicada pela indústria alimentícia para processos de execução de animais – o abate de bois e frangos nos frigoríficos da linha de produção do agronegócio –, no contexto da segurança pública é imoral e grotesco.

Demonstra o quanto estamos degradando a nossa humanidade comum e cedendo terreno cada vez mais extenso à barbárie. Desumanizar as vítimas é um primeiro passo para a liberalização definitiva do extermínio de jovens negros e pobres a pretexto de garantir uma segurança seletiva e ineficaz. Policiais, moradores de favela e jovens negros serão as vítimas principais de uma medida que apenas reforça a rotina de violência que marca profundamente a relação do estado com os territórios de periferias. Não esquecer que estamos entre os países onde mais a polícia mais mata e mais morre, sendo que raramente as mortes cometidas pela polícia chegam sequer a ser investigadas.

Somente no estado do Rio de Janeiro, as ações da polícia, especialmente nas favelas e territórios periféricos, já provocaram a morte de 916 pessoas, no período de janeiro a agosto de 2018. Entre elas crianças e moradores vitimados em meio a verdadeiras operações de guerra que reduzem áreas densamente povoadas a condição de territórios inimigos que devem pagar o preço necessário de uma pacificação à fórceps que destroça corpos negros e jovens.

Precisamos cuidar das políticas e das ações, mas precisamos também cuidar das palavras. É pelas palavras que a desumanização começa. A primeira pergunta que deveria estar sendo feita às autoridades e especialistas é se cabe ao estado falar em abate de seres humanos, a não ser que sejam anuladas completamente qualquer traço de humanidade. Vamos precisar aceitar que uns são menos humanos do que outros, reduzidos a uma condição inferior até mesmos aos animais de corte, pois sequer terão os seus despojos aproveitados para a produção de ração animal.

 

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Abandono

"Sombras"(2014)
“Sombras”(2014) – André Hauck

Deitado na calçada, um menino. Uma CRIANÇA. Profundamente adormecido. Apagado. Podia ser consequência da fome, da cola ou, simplesmente, tristeza. Estava VIVO. Respirava. Notei. Uma criança NEGRA, largado no tempo, desamparado. Sozinho.

O sentimento de impotência foi devastador. Ainda tentei, timidamente, falar com ele, acordá-lo. Torci para que abrisse os olhos e ao menos soubesse que alguém tinha parado e visto que ele estava ali. Imaginei oferecer algum dinheiro para que fosse comer algo e beber uma água, um suco, um refrigerante. O sol estava forte, a calçada devia estar quente, ele devia estar com fome e sede, depois de um sono, um ABANDONO, tão profundo.

Mas ele não acordou.

Contemplei o menino por mais alguns instantes e segui meu caminho. “Estou atrasado”, pensei, tentando acalmar minha consciência, “não posso perder o voo”. Mas o menino não saiu da minha cabeça, ficou ali martelando.

A profundidade de seu sono é o retrato acabado de nossa desgraça: a normatização da INDIFERENÇA, o rebaixamento de nossa própria humanidade, uma sociedade cada vez mais desprovida de compaixão e solidariedade.

EU não fui capaz de fazer nada por ele (nem por tantos que cruzam o meu caminho todos os dias). Agora sinto essa tristeza profunda, envergonhada, inútil, flutuando no espaço. Com a certeza acachapante de que perdi a oportunidade de fazer a diferença no momento raro em que UM menino se fez visível no meu caminho.

(Escrito originalmente em 12/06/2015)

Minha vida entre livros

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Para Ana Paula Lisboa e Alexandre Roque

Sou apaixonado por livros. Não consigo imaginar uma vida sem livros ou uma casa sem estantes cheias de livros. Sinto conforto quando cercado por eles, desorganizados que sejam, empilhados ou mesmo empoeirados. Tenho a impressão que nasci gostando de livros, mesmo tendo crescido em uma casa praticamente sem livros. Meu pai e minha mãe não eram leitores. Pelo menos não tenho memórias deles lendo. Se bem que minha mãe sim tinha o cuidado de sempre ler e contar histórias para mim. E me impressionava muito mais pelas histórias que contava. Algumas verdadeiras histórias de terror infantil. Não sei se repetia ou inventava, mas nunca encontrei em livros aquelas histórias de terror, quase sempre envolvendo um macaco e uma onça – onde o macaco infligia verdadeiros horrores à coitada da onça.

Não tinha nada parecido com uma biblioteca em casa. As estantes eram para exibir objetos e bibelôs, talvez um ou outro livro acidental, alguma coleção ou exemplar de enciclopédia, mas nada que se parecesse com uma estante de livros de verdade.

Os primeiros livros que lembro foram os meus. Foram sendo colocados em minhas mãos desde muito cedo. Isso é importante. Mesmo não sendo leitores, meus pais alimentaram meus hábitos de leitura, dentro dos limites econômicos restritos de nossa família, tinha sempre um dinheirinho para comprar primeiro gibis, depois coleções e livros de bolso na banca de jornal perto de casa.

A primeira lembrança de leitura que trago não foi exatamente de leitura, mas de um desejo forte de leitura, quando ganhei de presente de uma prima uma caixa de papelão lotada de gibis. Eu ainda não sabia ler, mas passava muito tempo folheando os gibis daquela caixa, olhando as figuras, imaginando o que estavam dizendo as personagens, recriando na minha cabeça os diálogos que pendiam naqueles balões acima de cada um deles. Ainda hoje tenho impressão que as minhas ideias nascem em balões flutuantes acima da minha cabeça. Quando finalmente aprendi a ler devorei em tempo recorde aquela caixa de revistas em quadrinhos. Esse foi um dos maiores prazeres que lembro de ter experimentado na minha infância. Aquela caixa de papelão foi a minha primeira biblioteca.

A partir daí comecei a somar novos exemplares à minha coleção e a fonte inesgotável era a banca de jornal que ficava no quarteirão da minha casa, na esquina da Rua Barão com a Rua Marangá, na Praça Seca, Jacarepaguá. Costumo dizer que me transformei em leitor compulsivo graças a banca de jornal. Eu era aquela criança que passava boa parte do tempo sentado ao lado do jornaleiro, lendo ali mesmo, com a sua cumplicidade, os gibis expostos para a venda. Outras vezes, como lia muito rápido, comprava, levava para a casa, lia com o máximo de cuidado para não deixar marcas e voltava para trocar por outro. Os que gostava muito ficavam na minha coleção. Eram quase sempre gibis do Tio Patinhas, Pato Donald e sua turma, os super-heróis: Batman, Super-Homem, Homem Aranha, Nabor (o rei dos mares), Thor, Fantasma etc. A Turma da Mônica ainda não existia.

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Dos gibis fui para os livros de bolso. Foi com eles que aprendi a ler sem figuras, texto corrido. Uma enormidade de histórias de aventuras, espionagem, faroestes e muitas outras. As capas de alguns eram sugestivas, com mulheres fatais e histórias recheadas de sexo e vilões mal-encarados. Infelizmente não sobrou nenhum desses exemplares para que eu pudesse relembrar as histórias.

Depois, sempre na banca de jornal, já adolescente, comecei a devorar as coleções da Editora Abril, tipo, “clássicos da literatura mundial”, através das quais, em edições condensadas ou completas, entrei em contato com Alexandre Dumas, Cervantes, Mark Twain e outros autores. Ainda guardo alguns desses exemplares, quase sempre de capas duras e bonitas. Eram caros para mim e já exigiam uma certa administração orçamentária da “semanada”. Como ainda não namorava, nem bebia, não tinha mesmo onde gastar.

(A minha diversão, fora a leitura, não custava nada ou quase nada: carrinho de rolimã, pipa, bicicleta e bola de gude, pique, taco e arco e flecha. Eu era um perigo com os arcos e flechas que fazia de bambu. Mas isso é outra história.)

A primeira coleção séria que ganhei foi da minha avó Izabel, mãe do meu pai. Ela tinha na casa dela uma coleção completa de Jorge Amado, sempre que eu ia lá ficava olhando, com os olhos gulosos. Um dia ela me deu a coleção de presente. Devorei, sem parar, um atrás do outro. Ainda hoje tenho essa coleção na minha estante, agora não mais completa porque Jorge Amado ainda era vivo e produtivo naquela época e continuou assim por um bom tempo depois daquele presente, mas eu nunca mais me animei a ler os novos romances, nem comprei nenhum. Mas li os essenciais, acredito.

A leitura acabou se tornando o hábito mais constante na minha vida, seguido de perto pela música. Nunca parei de ler. Um aprendizado sem nenhuma orientação ou método – nunca gostei das aulas de literatura no colégio, nem entendi bem as classificações de escolas e autores –  cheio de ausências de obras clássicas e essenciais muitas das quais até hoje não li.

Quando entrei na faculdade, no curso de História, no IFCS/UFRJ, mesmo tendo sido aquele adolescente leitor compulsivo, senti durante muito tempo uma estranha sensação de inferioridade. Os meus colegas de curso, oriundos das boas escolas privadas da Zona Sul, alguns de famílias letradas e politizadas, vinham lidos em uma infinidade de autores (quase sempre franceses e russos) que me eram desconhecidos. Hoje penso que esses autores não deveriam ser bem vistos pela ditadura e as editoras evitavam incluí-los nas coleções de banca de jornais, sei lá. Essa é única razão que encontro para nunca ter encontrado um Proust ou um Dostoievski nas coleções de banca de jornal. Ainda hoje, às vezes, tenho umas recaídas de inferioridade diante da sapiência e erudição desses intelectuais que conseguem falar com propriedade sobre uma infinidade de autores. Mas felizmente não dura muito.

Hoje, tanto tempo e tanta coisa depois de quando acessava o mundo através da banca de jornal, tenho muito orgulho da pequena biblioteca que possuo. Modesta se comparada a outras que conheço, mas um verdadeiro Eldorado de histórias, conhecimentos e sonhos, considerando o meu ponto de partida. Minha filha diz que essa é a parte da herança que lhe cabe. Esperta, sabe que não vai ter outro bem para almejar mesmo. Acúmulo de bens nunca foi meu forte. Já há algum tempo vem se antecipando e pegando “emprestado” alguns livros. Tenho que fazer missões de busca e apreensão no seu quarto toda a vez que sinto falta de algum título. Mas fico feliz em saber que essas estantes cheias ainda terão alguma importância depois que eu não estiver mais por aqui. Sinto pena das novas gerações que não contam mais com as coleções de banca de jornais, nem os livros de bolso. Devo quase tudo que sei a eles.

Na contra a corrente

Não faz meu estilo cultivar tristezas e desânimo, mas o desejo de vida tem me escapado pelos dedos, diante de um cenário tão desolador. O pulso ainda pulsa, mas confesso que senti fundo os últimos golpes. O assassinato brutal da Marielle, a ruína da política institucional, o autoritarismo quase fascista que perdeu a vergonha de mostrar a cara – pelo contrário, bate no peito com orgulho a professar suas intolerâncias –, a crise econômica que joga literalmente na rua da miséria milhões de pessoas e a persistência da violência simbólica e real que segue matando a juventude negra e das favelas, são algumas das feridas abertas que subtraem as minhas forças.

Mas não estou sozinho, pelo o que parece. Flávia de Oliveira, minha amiga mais otimista, sempre capaz de tirar alegria e força das pedreiras mais impenetráveis, fala do desânimo generalizado com a Copa em seu artigo no O Globo dessa semana. Ela usa uma palavra mais poética (e triste): desencanto. Estamos, como povo, menos dispostos a alegria. E parece que não vemos mais qualquer razão para cultivar aquela picardia alegre com a qual sempre fomos capazes de rir dos azares cotidianos, sacudir a poeira e seguir em frente. Nosso orgulho de ser brasileiros parece ferido de morte depois de tantas pancadas.

O psicanalista Contardo Caligaris, na Folha de São Paulo, vai mais fundo ao arriscar um diagnóstico de depressão do tipo “sociogênica”, coletiva. E a Organização Mundial da Saúde reforça o diagnóstico, apontando, em 2017,  o Brasil como o quinto país mais deprimido do mundo e o campeão absoluto em ansiedade. Somos 11,5 milhões de deprimidos, cerca de 5,8% da população. Só estamos menos deprimidos do que a Ucrânia (6,3%), EUA (5,9%), Austrália (5,9%) e Estônia (5,9%). Com isso vamos perdendo a capacidade de constituir uma esperança compartilhada no futuro da nação.

O risco maior em quadros sociais como o detectado por Flávia e Contardo é vermos avançar um estado de anomia generalizada que crava um sentimento difuso de solidão e abandono. Mais do que nunca precisamos buscar espaços de sociabilidade criativa, acolhimento afetivo e diálogo político verdadeiramente plurais e inclusivos. Romper as bolhas que represam nossa imaginação e circunscrevem nossas possibilidades de pensar outros caminhos individuais e coletivos. É preciso fazer de tudo para desatar a âncora que nos puxa para baixo e buscar o ar puro, o espaço aberto, o mar infinito capaz de alimentar o desejo de viver.

Uma vez, na adolescência, experimentei a experiência terrível do afogamento. Nadava bem, era abusado, e um dia cai em uma das armadilhas do mar. Pensei que não sairia vivo. Suei frio dentro d’água, nunca imaginei que isso era possível. Tenho a impressão que estamos, muitos de nós, vivendo uma experiência parecida. Um fundo de poço que parece não ter fim. Mas naquela tarde nublada, na Praia do Forte, em Cabo Frio, sozinho, encontrei forças para nadar para além da arrebentação, circunscrever a vala em que tinha caído, e nadar de volta à praia, onde fui socorrido pela mão de um amigo que não sabia nadar, mas que teve forças para me arrastar de volta para areia. Acho que é de uma força parecida que precisamos (preciso) hoje para romper com a barreira da arrebentação e, com certeza, muitas mãos amigas para caminharmos juntos de volta à praia.

O doce sabor do privilégio 



Estive recentemente em um desses clubes chiques a beira da Lagoa Rodrigo de Freitas. Era a minha primeira vez no clube. A impressão que senti após alguns momentos de circulação, mesmo sendo tratado com cortesia pelos funcionários, foi uma combinação de deslumbre e desconforto, como se a qualquer momento fosse ser desmascarado como alguém que não deveria estar ali. Mas o dia estava lindo, a vista convidativa e o calor ameno do sol matinal acariciava o meu rosto. Relaxei, sentei a beira da Lagoa, tirei umas fotos e saquei um livro para desfrutar algumas horas de leitura diante daquela paisagem deslumbrante. Mas o incômodo já tinha se instalado.

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Não consegui parar de pensar no desconforto inicial. O que tinha provocado esse sentimento de deslocamento? Afinal, não era a minha primeira vez em espaços de elite, estou bem acostumado a ser o único em certos ambientes. A vida me deu oportunidades de estar em espaços de poder e privilégio, onde normalmente pessoas com a minha origem, negro e suburbano, raramente chegam. E a posição que ocupo hoje, diretor de uma grande Fundação internacional privada, não apenas abre ainda mais o meu acesso a esses espaços de poder, como também requer um estado constante de alerta sobre o meu próprio lugar de privilégio.

Mas toda essa vivência não evitou a forte sensação de que estava invadindo um espaço onde não era convidado. Precisei parar e pensar um pouco sobre isso. Não tenho uma resposta, mas algumas aproximações.

Uma primeira ideia que me ocorreu foi constatar que aquele é um espaço de lazer reservado aos que compartilham uma ligação profunda de classe e raça/cor: um lugar de pessoas brancas de classe média alta e ricas ou detentoras de um capital social decorrente quase sempre de relações familiares. O meu desconforto era decorrente do fato de não me sentir possuidor daquilo que em inglês chamam de “entitlement” – o direito quase natural a um benefício ou reconhecimento. Certamente nem passa na cabeça das associadas daquele clube que elas não sejam merecedoras do que o espaço tem a oferecer de melhor: o privilégio de estar ali entre iguais.

Olhando em torno, durante as cerca de duas horas em que ali estive, não vi sequer um negro fora do lugar comum de prestador de serviço. A paz daquelas quadras de tênis e futebol, piscinas, os veleiros e pequenas lanchas estacionadas no hangar, a tranquilidade e a atmosfera despreocupada, sem nenhuma pressa, com a qual aquelas pessoas caminhavam pelas dependências do clube, era algo que remetia a uma intimidade quase familiar, constituída através dos laços indeléveis do privilégio. Esse foi um primeiro pensamento.

É muito bom ser rico e branco no Rio de Janeiro, mesmo estando, como estamos, no fundo do poço.

O segundo pensamento foi o quanto é difícil para as elites brancas, ricas ou de classe média alta da Zona Sul do Rio de Janeiro abrir mão de seus privilégios. É muito bom ser rico e branco no Rio de Janeiro, mesmo estando, como estamos, no fundo do poço. Mesmo quando não se é muito rico, nem muito branco, desde que se alcance uma combinação favorável dessas duas condições, de modo a ser capaz de fazer parte dos círculos sociais protegidos em que vive a elite carioca. Sem falar que a vista é sem igual, especialmente quando se pode desfrutar dela em recantos exclusivos, resorts, clubes, condomínios e restaurantes de luxo, sem perturbações, perigos ou ruídos.

Tudo isso me levou a respirar fundo, já saindo do clube, e pensar que o caminho da igualdade passa por uma mudança somente possível com a ruptura dos espaços de privilégio por aqueles que até agora estiveram sentados a margem do banquete. O lugar do privilégio é muito confortável para que se queira deixá-lo voluntariamente. Ainda guardo na memória o que aconteceu quando de maneira muito modesta, mas extremamente significativa, se implantou a política de cotas, trazendo para o espaço da universidade pública uma população de jovens que até então não tinha o ensino superior no seu horizonte. A reação foi brutal e ainda hoje ouvimos os mesmos argumentos carcomidos de ressentimento sobre “racismo às avessas”, “mérito”, “rebaixamento da qualidade” etc.

É necessário a construção de um outro normal, mais diverso e inclusivo. Para isso é preciso abrir espaços para o protagonismo, a criatividade e a beleza da juventude das periferias e favelas. Escutar as vozes e demandas das jovens mulheres feministas que reinventam a ação política e a luta por direitos, obtendo conquistas inimagináveis há bem pouco tempo. Reconhecer os movimentos que reivindicam a cidade como território de todos, a ser desfrutado e ocupado por todos os atores sociais, na sua colorida diversidade. Abrir espaço para artistas e criadores negros ocuparem o seu lugar na mídia e nas artes, especialmente no campo do áudio visual (cinema, TV, internet), com suas narrativas e experiências, como autores, roteiristas, diretores, atores e curadores. Criar as condições para o florescimento do empreendedorismo popular, capaz de reinventar a economia local e produzir circuitos de produção solidária com enorme potencial de geração de riqueza. Qualquer um que já tenha se aproximado da vida econômica de uma grande favela sabe do que estou falando.

É preciso que o privilégio seja um lugar de desconforto e não de desfrute.

No entanto, nada disso virá apenas através de um movimento de conscientização dos que detém os privilégios, por mais importante que seja a construção de pontes e diálogos que aproximem mundos tão apartados. Eles terão que ser incentivados a abrir mão de tanto desfrute e conforto – ou pelo menos, digamos, compartilhar com um universo mais amplo de pessoas – pelo protagonismo e mobilização dos excluídos. Somente a participação ativa e a visibilidade desses novos atores sociais levará os que sempre estiveram protegidos pelos muros invisíveis da exclusão social a abrir espaço e reconhecer que não são os únicos a terem direito a ter direitos. É preciso que o privilégio seja um lugar de desconforto e não de desfrute. Esse é o nosso principal desafio se queremos superar as desigualdades que se nutrem do racismo, do sexismo e da violência que estruturam as relações sociais no Brasil.

Memórias suburbanas

Detesto dia chuvoso e cinza quando estou meio triste. Encolho, silencio, tenho que lutar para reagir e seguir em frente, escapar de mim mesmo, coisa difícil, mas não completamente impossível, diz-se. Busco lembranças. Não é que não goste da chuva e do frio, mas apenas quando estou descansado, leve e alegre. Esses dias sim, trazem lembranças de banhos de chuva misturado com a lama do barro da rua Barão, na Praça Seca. Sinto saudades do barro. E também das montanhas de pó de pedra de uma pedreira que existia praticamente ao lado da casa dos meus avós no Pau Ferro, em Jacarepaguá. Foi lá que conheci minha bisavó, “vó Baldina”, a única viva que tive. Digo, bisavó, pois avós conheci todas e a última se foi muito recente, já do alto dos seus 105 anos. “Vó Dete”, Odete, filha da Baldina. Ela era quem fazia o frango ao molho pardo mais gostoso da minha vida. Hoje, onde era a casa antiga e muito simples dos meus avós, a pedreira e o enorme quintal, sobraram apenas os condomínios de casas horríveis e iguais: foram-se os pés de cana, as goiabeiras, o pé de jambo e tudo o mais. Dessa época não tenho fotos. Fotografia era algo muito caro na minha infância, apenas para nascimentos e casamentos, com fotos posadas. Meus avós moraram naquela casa em um tempo em que aquela parte de Jacarepaguá era praticamente rural. Criavam muitos bichos, alguns para comer no Natal, como o caso dos porcos e perus, outros mais triviais para servir aos domingos, como as galinhas. Eu os via meus matando porcos e galinhas. Nunca me acostumei com os gritos dos porcos, mas nunca me furtei a saboreá-los quando servidos. Um dia chegou a especulação imobiliária e, com ela, um dono do terreno que meus avós sempre acharam e cuidaram como se deles fosse. A justiça disse que não e, assim, de uma hora para outra, ficaram sem teto. Vieram morar com a nossa família, em Bento Ribeiro. Mas nunca vou esquecer aquela infância cercada de tios e primos, travessuras, sabores, árvores e bichos. Uma infância que teve chifrada de bode, tombo de barranco, queda de árvore e surra de vara de goiabeira. Sinto saudade até das surras, merecidas e, efetivamente, nunca aplicadas de fato, pois eu sempre corria bem mais do que o meu avô, piauiense arretado, contador de causos do sertão, dizia ter feito parte da busca a Lampião, protetor das árvores e das goiabas verdes que o neto teimava em arrancar. E lá vinha ele com a vara, acertava as pernas, enquanto o moleque-neto descia da árvore e ganhava velocidade pra longe, bem longe dele. Voltava somente quando tudo já estava calmo. E ele já disposto a me contar outro caso de Lampião. Lamento demais que meus filhos nunca experimentaram nada disso, crianças urbanas e de classe média . Sei que tem outras coisa, não sou saudosista, mas gosto de cuidar das memórias, acumulando os pedaços que sobram, fotos, cartas, anotações. E de vez em quando contando para não esquecer. Também tive um avô chamado Pinto, vô pinto – sem trocadilhos infames, por favor – que além de muitas filhas, tinha também um circo, outra parte da minha infância que parece até que foi sonhada, na Praça Seca, cercada de palhaços medonhos, calhambeques que se desmontavam em cena e globo da morte. Mas essa é outra história…

A incrível história dos dentes voadores

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Uma amiga lembrou, em comentário no Facebook, um episódio nosso ocorrido em um voo pra Tailândia. E como um fio de memória puxa outro, a história me trouxe outra lembrança de viagem. Já contei em post no Face, mas resolvi deixar registrado também no blog já que, quem sabe, pode acabar virando uma série. Bem, vamos lá:

Vou contar, acredite se quiser, mas juro que aconteceu. Em voos sempre escolho corredor, detesto ficar “preso” na janela. Então, uma vez, em um voo muito longo, Frankfurt-Kuala Lumpur, classe econômica, sentou-se ao meu lado uma senhora, bem velhinha, com aquele sorriso simpático das velhinhas hindus, vestida lindamente com muitas camadas de panos coloridos, mas que não falava uma palavrinha sequer de ingles ou qualquer outro idioma que eu reconhecesse. Depois de algumas mesuras e sorrisos ela tirou da bolsa um bilhete que dizia mais ou menos o seguinte: “Essa senhora é minha tia e se chama XXX (não lembro, lógico), não fala nenhuma palavra de ingles, é diabética, nunca andou de avião e não pode de maneira alguma tomar nada com açúcar. Por favor ajude. Obrigado”. Pronto, foi assim que fui instantaneamente transformado em cuidador e fiscal da senhora pelas próximas 16 horas de voo, alertando aos comissários, fiscalizando a comida, ajudando a levantar e levar ao banheiro. Nada de dormir ou ouvir música como gosto por horas seguidas em viagens longas. E ela sempre sorrindo muito, com muitas mesuras, em agradecimento. E eu sorrindo de volta. Mas não acabou. Eis que no meio da madrugada aérea, a senhorinha começa a se mexer, buscar alguma coisa aqui e ali, levantar os panos, olhar o banco, o chão. Vendo a agonia, através de mímicas, tentei descobrir o que ela procurava. E descobri quando ela, singelamente, apontou para a própria boca e – pronto – cadê o sorriso? Não pergunte como, nunca soube, mas ela tinha perdido a dentadura. O fato é que, de repente, lá estava eu, engatinhando pelo corredor do avião procurando a dentadura. E fui encontrar, sei lá como, uns três ou quatro assentos adiante, embaixo dos pés de um alemão mal encarado e sonolento. Expliquei delicadamente, em ingles, que precisava recolher, juntos aos seus pés, os dentes da senhora (e tive que apelar para criatividade, já que não sabia falar “dentadura” em alemão e ele também não falava inglês). Mas o alemão, educadamente – muito espantado com a cena – deixou que eu pegasse, com um providencial guardanapo, o artefato tão essencial. Nunca vi ninguém agradecer tanto quanto aquela senhora no momento em que trouxe de volta o seu sorriso e a ajudei a ir ao banheiro lavar e recolocar no lugar. Sorte minha, ela foi sorrindo até o final da viagem que, felizmente, já estava acabando … pra ela. Eu ainda tinha uma conexão para Penang. Mas essa é outra história…