Abandono

"Sombras"(2014)
“Sombras”(2014) – André Hauck

Deitado na calçada, um menino. Uma CRIANÇA. Profundamente adormecido. Apagado. Podia ser consequência da fome, da cola ou, simplesmente, tristeza. Estava VIVO. Respirava. Notei. Uma criança NEGRA, largado no tempo, desamparado. Sozinho.

O sentimento de impotência foi devastador. Ainda tentei, timidamente, falar com ele, acordá-lo. Torci para que abrisse os olhos e ao menos soubesse que alguém tinha parado e visto que ele estava ali. Imaginei oferecer algum dinheiro para que fosse comer algo e beber uma água, um suco, um refrigerante. O sol estava forte, a calçada devia estar quente, ele devia estar com fome e sede, depois de um sono, um ABANDONO, tão profundo.

Mas ele não acordou.

Contemplei o menino por mais alguns instantes e segui meu caminho. “Estou atrasado”, pensei, tentando acalmar minha consciência, “não posso perder o voo”. Mas o menino não saiu da minha cabeça, ficou ali martelando.

A profundidade de seu sono é o retrato acabado de nossa desgraça: a normatização da INDIFERENÇA, o rebaixamento de nossa própria humanidade, uma sociedade cada vez mais desprovida de compaixão e solidariedade.

EU não fui capaz de fazer nada por ele (nem por tantos que cruzam o meu caminho todos os dias). Agora sinto essa tristeza profunda, envergonhada, inútil, flutuando no espaço. Com a certeza acachapante de que perdi a oportunidade de fazer a diferença no momento raro em que UM menino se fez visível no meu caminho.

(Escrito originalmente em 12/06/2015)

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Minha vida entre livros

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Para Ana Paula Lisboa e Alexandre Roque

Sou apaixonado por livros. Não consigo imaginar uma vida sem livros ou uma casa sem estantes cheias de livros. Sinto conforto quando cercado por eles, desorganizados que sejam, empilhados ou mesmo empoeirados. Tenho a impressão que nasci gostando de livros, mesmo tendo crescido em uma casa praticamente sem livros. Meu pai e minha mãe não eram leitores. Pelo menos não tenho memórias deles lendo. Se bem que minha mãe sim tinha o cuidado de sempre ler e contar histórias para mim. E me impressionava muito mais pelas histórias que contava. Algumas verdadeiras histórias de terror infantil. Não sei se repetia ou inventava, mas nunca encontrei em livros aquelas histórias de terror, quase sempre envolvendo um macaco e uma onça – onde o macaco infligia verdadeiros horrores à coitada da onça.

Não tinha nada parecido com uma biblioteca em casa. As estantes eram para exibir objetos e bibelôs, talvez um ou outro livro acidental, alguma coleção ou exemplar de enciclopédia, mas nada que se parecesse com uma estante de livros de verdade.

Os primeiros livros que lembro foram os meus. Foram sendo colocados em minhas mãos desde muito cedo. Isso é importante. Mesmo não sendo leitores, meus pais alimentaram meus hábitos de leitura, dentro dos limites econômicos restritos de nossa família, tinha sempre um dinheirinho para comprar primeiro gibis, depois coleções e livros de bolso na banca de jornal perto de casa.

A primeira lembrança de leitura que trago não foi exatamente de leitura, mas de um desejo forte de leitura, quando ganhei de presente de uma prima uma caixa de papelão lotada de gibis. Eu ainda não sabia ler, mas passava muito tempo folheando os gibis daquela caixa, olhando as figuras, imaginando o que estavam dizendo as personagens, recriando na minha cabeça os diálogos que pendiam naqueles balões acima de cada um deles. Ainda hoje tenho impressão que as minhas ideias nascem em balões flutuantes acima da minha cabeça. Quando finalmente aprendi a ler devorei em tempo recorde aquela caixa de revistas em quadrinhos. Esse foi um dos maiores prazeres que lembro de ter experimentado na minha infância. Aquela caixa de papelão foi a minha primeira biblioteca.

A partir daí comecei a somar novos exemplares à minha coleção e a fonte inesgotável era a banca de jornal que ficava no quarteirão da minha casa, na esquina da Rua Barão com a Rua Marangá, na Praça Seca, Jacarepaguá. Costumo dizer que me transformei em leitor compulsivo graças a banca de jornal. Eu era aquela criança que passava boa parte do tempo sentado ao lado do jornaleiro, lendo ali mesmo, com a sua cumplicidade, os gibis expostos para a venda. Outras vezes, como lia muito rápido, comprava, levava para a casa, lia com o máximo de cuidado para não deixar marcas e voltava para trocar por outro. Os que gostava muito ficavam na minha coleção. Eram quase sempre gibis do Tio Patinhas, Pato Donald e sua turma, os super-heróis: Batman, Super-Homem, Homem Aranha, Nabor (o rei dos mares), Thor, Fantasma etc. A Turma da Mônica ainda não existia.

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Dos gibis fui para os livros de bolso. Foi com eles que aprendi a ler sem figuras, texto corrido. Uma enormidade de histórias de aventuras, espionagem, faroestes e muitas outras. As capas de alguns eram sugestivas, com mulheres fatais e histórias recheadas de sexo e vilões mal-encarados. Infelizmente não sobrou nenhum desses exemplares para que eu pudesse relembrar as histórias.

Depois, sempre na banca de jornal, já adolescente, comecei a devorar as coleções da Editora Abril, tipo, “clássicos da literatura mundial”, através das quais, em edições condensadas ou completas, entrei em contato com Alexandre Dumas, Cervantes, Mark Twain e outros autores. Ainda guardo alguns desses exemplares, quase sempre de capas duras e bonitas. Eram caros para mim e já exigiam uma certa administração orçamentária da “semanada”. Como ainda não namorava, nem bebia, não tinha mesmo onde gastar.

(A minha diversão, fora a leitura, não custava nada ou quase nada: carrinho de rolimã, pipa, bicicleta e bola de gude, pique, taco e arco e flecha. Eu era um perigo com os arcos e flechas que fazia de bambu. Mas isso é outra história.)

A primeira coleção séria que ganhei foi da minha avó Izabel, mãe do meu pai. Ela tinha na casa dela uma coleção completa de Jorge Amado, sempre que eu ia lá ficava olhando, com os olhos gulosos. Um dia ela me deu a coleção de presente. Devorei, sem parar, um atrás do outro. Ainda hoje tenho essa coleção na minha estante, agora não mais completa porque Jorge Amado ainda era vivo e produtivo naquela época e continuou assim por um bom tempo depois daquele presente, mas eu nunca mais me animei a ler os novos romances, nem comprei nenhum. Mas li os essenciais, acredito.

A leitura acabou se tornando o hábito mais constante na minha vida, seguido de perto pela música. Nunca parei de ler. Um aprendizado sem nenhuma orientação ou método – nunca gostei das aulas de literatura no colégio, nem entendi bem as classificações de escolas e autores –  cheio de ausências de obras clássicas e essenciais muitas das quais até hoje não li.

Quando entrei na faculdade, no curso de História, no IFCS/UFRJ, mesmo tendo sido aquele adolescente leitor compulsivo, senti durante muito tempo uma estranha sensação de inferioridade. Os meus colegas de curso, oriundos das boas escolas privadas da Zona Sul, alguns de famílias letradas e politizadas, vinham lidos em uma infinidade de autores (quase sempre franceses e russos) que me eram desconhecidos. Hoje penso que esses autores não deveriam ser bem vistos pela ditadura e as editoras evitavam incluí-los nas coleções de banca de jornais, sei lá. Essa é única razão que encontro para nunca ter encontrado um Proust ou um Dostoievski nas coleções de banca de jornal. Ainda hoje, às vezes, tenho umas recaídas de inferioridade diante da sapiência e erudição desses intelectuais que conseguem falar com propriedade sobre uma infinidade de autores. Mas felizmente não dura muito.

Hoje, tanto tempo e tanta coisa depois de quando acessava o mundo através da banca de jornal, tenho muito orgulho da pequena biblioteca que possuo. Modesta se comparada a outras que conheço, mas um verdadeiro Eldorado de histórias, conhecimentos e sonhos, considerando o meu ponto de partida. Minha filha diz que essa é a parte da herança que lhe cabe. Esperta, sabe que não vai ter outro bem para almejar mesmo. Acúmulo de bens nunca foi meu forte. Já há algum tempo vem se antecipando e pegando “emprestado” alguns livros. Tenho que fazer missões de busca e apreensão no seu quarto toda a vez que sinto falta de algum título. Mas fico feliz em saber que essas estantes cheias ainda terão alguma importância depois que eu não estiver mais por aqui. Sinto pena das novas gerações que não contam mais com as coleções de banca de jornais, nem os livros de bolso. Devo quase tudo que sei a eles.

Na contra a corrente

Não faz meu estilo cultivar tristezas e desânimo, mas o desejo de vida tem me escapado pelos dedos, diante de um cenário tão desolador. O pulso ainda pulsa, mas confesso que senti fundo os últimos golpes. O assassinato brutal da Marielle, a ruína da política institucional, o autoritarismo quase fascista que perdeu a vergonha de mostrar a cara – pelo contrário, bate no peito com orgulho a professar suas intolerâncias –, a crise econômica que joga literalmente na rua da miséria milhões de pessoas e a persistência da violência simbólica e real que segue matando a juventude negra e das favelas, são algumas das feridas abertas que subtraem as minhas forças.

Mas não estou sozinho, pelo o que parece. Flávia de Oliveira, minha amiga mais otimista, sempre capaz de tirar alegria e força das pedreiras mais impenetráveis, fala do desânimo generalizado com a Copa em seu artigo no O Globo dessa semana. Ela usa uma palavra mais poética (e triste): desencanto. Estamos, como povo, menos dispostos a alegria. E parece que não vemos mais qualquer razão para cultivar aquela picardia alegre com a qual sempre fomos capazes de rir dos azares cotidianos, sacudir a poeira e seguir em frente. Nosso orgulho de ser brasileiros parece ferido de morte depois de tantas pancadas.

O psicanalista Contardo Caligaris, na Folha de São Paulo, vai mais fundo ao arriscar um diagnóstico de depressão do tipo “sociogênica”, coletiva. E a Organização Mundial da Saúde reforça o diagnóstico, apontando, em 2017,  o Brasil como o quinto país mais deprimido do mundo e o campeão absoluto em ansiedade. Somos 11,5 milhões de deprimidos, cerca de 5,8% da população. Só estamos menos deprimidos do que a Ucrânia (6,3%), EUA (5,9%), Austrália (5,9%) e Estônia (5,9%). Com isso vamos perdendo a capacidade de constituir uma esperança compartilhada no futuro da nação.

O risco maior em quadros sociais como o detectado por Flávia e Contardo é vermos avançar um estado de anomia generalizada que crava um sentimento difuso de solidão e abandono. Mais do que nunca precisamos buscar espaços de sociabilidade criativa, acolhimento afetivo e diálogo político verdadeiramente plurais e inclusivos. Romper as bolhas que represam nossa imaginação e circunscrevem nossas possibilidades de pensar outros caminhos individuais e coletivos. É preciso fazer de tudo para desatar a âncora que nos puxa para baixo e buscar o ar puro, o espaço aberto, o mar infinito capaz de alimentar o desejo de viver.

Uma vez, na adolescência, experimentei a experiência terrível do afogamento. Nadava bem, era abusado, e um dia cai em uma das armadilhas do mar. Pensei que não sairia vivo. Suei frio dentro d’água, nunca imaginei que isso era possível. Tenho a impressão que estamos, muitos de nós, vivendo uma experiência parecida. Um fundo de poço que parece não ter fim. Mas naquela tarde nublada, na Praia do Forte, em Cabo Frio, sozinho, encontrei forças para nadar para além da arrebentação, circunscrever a vala em que tinha caído, e nadar de volta à praia, onde fui socorrido pela mão de um amigo que não sabia nadar, mas que teve forças para me arrastar de volta para areia. Acho que é de uma força parecida que precisamos (preciso) hoje para romper com a barreira da arrebentação e, com certeza, muitas mãos amigas para caminharmos juntos de volta à praia.

O doce sabor do privilégio 



Estive recentemente em um desses clubes chiques a beira da Lagoa Rodrigo de Freitas. Era a minha primeira vez no clube. A impressão que senti após alguns momentos de circulação, mesmo sendo tratado com cortesia pelos funcionários, foi uma combinação de deslumbre e desconforto, como se a qualquer momento fosse ser desmascarado como alguém que não deveria estar ali. Mas o dia estava lindo, a vista convidativa e o calor ameno do sol matinal acariciava o meu rosto. Relaxei, sentei a beira da Lagoa, tirei umas fotos e saquei um livro para desfrutar algumas horas de leitura diante daquela paisagem deslumbrante. Mas o incômodo já tinha se instalado.

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Não consegui parar de pensar no desconforto inicial. O que tinha provocado esse sentimento de deslocamento? Afinal, não era a minha primeira vez em espaços de elite, estou bem acostumado a ser o único em certos ambientes. A vida me deu oportunidades de estar em espaços de poder e privilégio, onde normalmente pessoas com a minha origem, negro e suburbano, raramente chegam. E a posição que ocupo hoje, diretor de uma grande Fundação internacional privada, não apenas abre ainda mais o meu acesso a esses espaços de poder, como também requer um estado constante de alerta sobre o meu próprio lugar de privilégio.

Mas toda essa vivência não evitou a forte sensação de que estava invadindo um espaço onde não era convidado. Precisei parar e pensar um pouco sobre isso. Não tenho uma resposta, mas algumas aproximações.

Uma primeira ideia que me ocorreu foi constatar que aquele é um espaço de lazer reservado aos que compartilham uma ligação profunda de classe e raça/cor: um lugar de pessoas brancas de classe média alta e ricas ou detentoras de um capital social decorrente quase sempre de relações familiares. O meu desconforto era decorrente do fato de não me sentir possuidor daquilo que em inglês chamam de “entitlement” – o direito quase natural a um benefício ou reconhecimento. Certamente nem passa na cabeça das associadas daquele clube que elas não sejam merecedoras do que o espaço tem a oferecer de melhor: o privilégio de estar ali entre iguais.

Olhando em torno, durante as cerca de duas horas em que ali estive, não vi sequer um negro fora do lugar comum de prestador de serviço. A paz daquelas quadras de tênis e futebol, piscinas, os veleiros e pequenas lanchas estacionadas no hangar, a tranquilidade e a atmosfera despreocupada, sem nenhuma pressa, com a qual aquelas pessoas caminhavam pelas dependências do clube, era algo que remetia a uma intimidade quase familiar, constituída através dos laços indeléveis do privilégio. Esse foi um primeiro pensamento.

É muito bom ser rico e branco no Rio de Janeiro, mesmo estando, como estamos, no fundo do poço.

O segundo pensamento foi o quanto é difícil para as elites brancas, ricas ou de classe média alta da Zona Sul do Rio de Janeiro abrir mão de seus privilégios. É muito bom ser rico e branco no Rio de Janeiro, mesmo estando, como estamos, no fundo do poço. Mesmo quando não se é muito rico, nem muito branco, desde que se alcance uma combinação favorável dessas duas condições, de modo a ser capaz de fazer parte dos círculos sociais protegidos em que vive a elite carioca. Sem falar que a vista é sem igual, especialmente quando se pode desfrutar dela em recantos exclusivos, resorts, clubes, condomínios e restaurantes de luxo, sem perturbações, perigos ou ruídos.

Tudo isso me levou a respirar fundo, já saindo do clube, e pensar que o caminho da igualdade passa por uma mudança somente possível com a ruptura dos espaços de privilégio por aqueles que até agora estiveram sentados a margem do banquete. O lugar do privilégio é muito confortável para que se queira deixá-lo voluntariamente. Ainda guardo na memória o que aconteceu quando de maneira muito modesta, mas extremamente significativa, se implantou a política de cotas, trazendo para o espaço da universidade pública uma população de jovens que até então não tinha o ensino superior no seu horizonte. A reação foi brutal e ainda hoje ouvimos os mesmos argumentos carcomidos de ressentimento sobre “racismo às avessas”, “mérito”, “rebaixamento da qualidade” etc.

É necessário a construção de um outro normal, mais diverso e inclusivo. Para isso é preciso abrir espaços para o protagonismo, a criatividade e a beleza da juventude das periferias e favelas. Escutar as vozes e demandas das jovens mulheres feministas que reinventam a ação política e a luta por direitos, obtendo conquistas inimagináveis há bem pouco tempo. Reconhecer os movimentos que reivindicam a cidade como território de todos, a ser desfrutado e ocupado por todos os atores sociais, na sua colorida diversidade. Abrir espaço para artistas e criadores negros ocuparem o seu lugar na mídia e nas artes, especialmente no campo do áudio visual (cinema, TV, internet), com suas narrativas e experiências, como autores, roteiristas, diretores, atores e curadores. Criar as condições para o florescimento do empreendedorismo popular, capaz de reinventar a economia local e produzir circuitos de produção solidária com enorme potencial de geração de riqueza. Qualquer um que já tenha se aproximado da vida econômica de uma grande favela sabe do que estou falando.

É preciso que o privilégio seja um lugar de desconforto e não de desfrute.

No entanto, nada disso virá apenas através de um movimento de conscientização dos que detém os privilégios, por mais importante que seja a construção de pontes e diálogos que aproximem mundos tão apartados. Eles terão que ser incentivados a abrir mão de tanto desfrute e conforto – ou pelo menos, digamos, compartilhar com um universo mais amplo de pessoas – pelo protagonismo e mobilização dos excluídos. Somente a participação ativa e a visibilidade desses novos atores sociais levará os que sempre estiveram protegidos pelos muros invisíveis da exclusão social a abrir espaço e reconhecer que não são os únicos a terem direito a ter direitos. É preciso que o privilégio seja um lugar de desconforto e não de desfrute. Esse é o nosso principal desafio se queremos superar as desigualdades que se nutrem do racismo, do sexismo e da violência que estruturam as relações sociais no Brasil.

Memórias suburbanas

Detesto dia chuvoso e cinza quando estou meio triste. Encolho, silencio, tenho que lutar para reagir e seguir em frente, escapar de mim mesmo, coisa difícil, mas não completamente impossível, diz-se. Busco lembranças. Não é que não goste da chuva e do frio, mas apenas quando estou descansado, leve e alegre. Esses dias sim, trazem lembranças de banhos de chuva misturado com a lama do barro da rua Barão, na Praça Seca. Sinto saudades do barro. E também das montanhas de pó de pedra de uma pedreira que existia praticamente ao lado da casa dos meus avós no Pau Ferro, em Jacarepaguá. Foi lá que conheci minha bisavó, “vó Baldina”, a única viva que tive. Digo, bisavó, pois avós conheci todas e a última se foi muito recente, já do alto dos seus 105 anos. “Vó Dete”, Odete, filha da Baldina. Ela era quem fazia o frango ao molho pardo mais gostoso da minha vida. Hoje, onde era a casa antiga e muito simples dos meus avós, a pedreira e o enorme quintal, sobraram apenas os condomínios de casas horríveis e iguais: foram-se os pés de cana, as goiabeiras, o pé de jambo e tudo o mais. Dessa época não tenho fotos. Fotografia era algo muito caro na minha infância, apenas para nascimentos e casamentos, com fotos posadas. Meus avós moraram naquela casa em um tempo em que aquela parte de Jacarepaguá era praticamente rural. Criavam muitos bichos, alguns para comer no Natal, como o caso dos porcos e perus, outros mais triviais para servir aos domingos, como as galinhas. Eu os via meus matando porcos e galinhas. Nunca me acostumei com os gritos dos porcos, mas nunca me furtei a saboreá-los quando servidos. Um dia chegou a especulação imobiliária e, com ela, um dono do terreno que meus avós sempre acharam e cuidaram como se deles fosse. A justiça disse que não e, assim, de uma hora para outra, ficaram sem teto. Vieram morar com a nossa família, em Bento Ribeiro. Mas nunca vou esquecer aquela infância cercada de tios e primos, travessuras, sabores, árvores e bichos. Uma infância que teve chifrada de bode, tombo de barranco, queda de árvore e surra de vara de goiabeira. Sinto saudade até das surras, merecidas e, efetivamente, nunca aplicadas de fato, pois eu sempre corria bem mais do que o meu avô, piauiense arretado, contador de causos do sertão, dizia ter feito parte da busca a Lampião, protetor das árvores e das goiabas verdes que o neto teimava em arrancar. E lá vinha ele com a vara, acertava as pernas, enquanto o moleque-neto descia da árvore e ganhava velocidade pra longe, bem longe dele. Voltava somente quando tudo já estava calmo. E ele já disposto a me contar outro caso de Lampião. Lamento demais que meus filhos nunca experimentaram nada disso, crianças urbanas e de classe média . Sei que tem outras coisa, não sou saudosista, mas gosto de cuidar das memórias, acumulando os pedaços que sobram, fotos, cartas, anotações. E de vez em quando contando para não esquecer. Também tive um avô chamado Pinto, vô pinto – sem trocadilhos infames, por favor – que além de muitas filhas, tinha também um circo, outra parte da minha infância que parece até que foi sonhada, na Praça Seca, cercada de palhaços medonhos, calhambeques que se desmontavam em cena e globo da morte. Mas essa é outra história…

A incrível história dos dentes voadores

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Uma amiga lembrou, em comentário no Facebook, um episódio nosso ocorrido em um voo pra Tailândia. E como um fio de memória puxa outro, a história me trouxe outra lembrança de viagem. Já contei em post no Face, mas resolvi deixar registrado também no blog já que, quem sabe, pode acabar virando uma série. Bem, vamos lá:

Vou contar, acredite se quiser, mas juro que aconteceu. Em voos sempre escolho corredor, detesto ficar “preso” na janela. Então, uma vez, em um voo muito longo, Frankfurt-Kuala Lumpur, classe econômica, sentou-se ao meu lado uma senhora, bem velhinha, com aquele sorriso simpático das velhinhas hindus, vestida lindamente com muitas camadas de panos coloridos, mas que não falava uma palavrinha sequer de ingles ou qualquer outro idioma que eu reconhecesse. Depois de algumas mesuras e sorrisos ela tirou da bolsa um bilhete que dizia mais ou menos o seguinte: “Essa senhora é minha tia e se chama XXX (não lembro, lógico), não fala nenhuma palavra de ingles, é diabética, nunca andou de avião e não pode de maneira alguma tomar nada com açúcar. Por favor ajude. Obrigado”. Pronto, foi assim que fui instantaneamente transformado em cuidador e fiscal da senhora pelas próximas 16 horas de voo, alertando aos comissários, fiscalizando a comida, ajudando a levantar e levar ao banheiro. Nada de dormir ou ouvir música como gosto por horas seguidas em viagens longas. E ela sempre sorrindo muito, com muitas mesuras, em agradecimento. E eu sorrindo de volta. Mas não acabou. Eis que no meio da madrugada aérea, a senhorinha começa a se mexer, buscar alguma coisa aqui e ali, levantar os panos, olhar o banco, o chão. Vendo a agonia, através de mímicas, tentei descobrir o que ela procurava. E descobri quando ela, singelamente, apontou para a própria boca e – pronto – cadê o sorriso? Não pergunte como, nunca soube, mas ela tinha perdido a dentadura. O fato é que, de repente, lá estava eu, engatinhando pelo corredor do avião procurando a dentadura. E fui encontrar, sei lá como, uns três ou quatro assentos adiante, embaixo dos pés de um alemão mal encarado e sonolento. Expliquei delicadamente, em ingles, que precisava recolher, juntos aos seus pés, os dentes da senhora (e tive que apelar para criatividade, já que não sabia falar “dentadura” em alemão e ele também não falava inglês). Mas o alemão, educadamente – muito espantado com a cena – deixou que eu pegasse, com um providencial guardanapo, o artefato tão essencial. Nunca vi ninguém agradecer tanto quanto aquela senhora no momento em que trouxe de volta o seu sorriso e a ajudei a ir ao banheiro lavar e recolocar no lugar. Sorte minha, ela foi sorrindo até o final da viagem que, felizmente, já estava acabando … pra ela. Eu ainda tinha uma conexão para Penang. Mas essa é outra história…

“Pontes para superar a desigualdade”

“O que a gente precisa é construir pontes para superar a desigualdade”

O diretor executivo da Anistia Internacional Brasil, Atila Roque, afirma que já passou da hora de buscar um pacto contra a violência e alerta para o retrocesso na conquista dos direitos

Atila Roque, diretor da Anistia Internacional no Brasil (Foto: AF Rodrigues/Divulgação)ATILA ROQUE, DIRETOR DA ANISTIA INTERNACIONAL NO BRASIL (FOTO: AF RODRIGUES/DIVULGAÇÃO)

Ao falar sobre direitos humanos, uma das pedras fundamentais da Anistia Internacional, Atila Roque relembra o comentário do jurista Oscar Vilhena Vieira. “Nós estamos vivendo no Brasil recente uma revolução tocquevilleana, que é a revolução da igualdade”, diz. A expressão vem do autor francês Alexis de Tocqueville, cujo livro “A Democracia na América” apontava a “onda irresistível da igualdade” vivida pelos Estados Unidos no século XIX, que iria mudar radicalmente o cenário da sociedade americana. Roque, que é diretor executivo da Anistia no Brasil, enxerga os mesmos paralelos. “Uma vez que você cria o desejo de ter direitos, você pode até retirar esses direitos, mas não vai retirar o desejo. A ideia da igualdade está dada”.

Aos 56 anos (ele completa 57 em novembro), Atila Roque tem sido uma das principais vozes no combate à violência, no abuso contra os direitos humanos. O envolvimento em causas sociais vem de longa data, desde o primeiro emprego no Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), que abraçou a causa da reforma agrária, passando pelo ActionAid International USA em Washington e pelo Social Watch, até seu próximo desafio. A partir de 9 de janeiro de 2017, Atila Roque será o diretor da Fundação Ford no Brasil, que combate a desigualdade econômica, política e social.

À frente da Anistia Internacional Brasil, Atila chamou atenção na semana passada para a “oportunidade perdida” nos Jogos Olímpicos Rio 2016. Um documento da organização apontou o aumento no número de homicídios antes da Olimpíada, um cenário muito semelhante ao ocorrido antes da Copa do Mundo em 2014. “Grandes eventos como Olimpíada e Copa seriam grandes oportunidades para aproveitar toda a mobilização de energia, recursos, vontade e fazer as reformas importantes nas áreas críticas”, defende. Segundo ele, a chamada área de segurança do Rio é um local de “promoção de desigualdade e violação de direitos”. No documento apresentado a cidade como candidata a sede dos Jogos, havia a citação ao legado de uma segurança cidadã – voltada para a promoção da paz. “O que nós vimos foi quase uma declaração de guerra às favelas, vimos isso acontecer na Copa e voltamos a ver acontecer na Olimpíada, e resultou num verdadeiro banho de sangue em muitas regiões da cidade. Só que isso ficou mascarado pela força tremenda da propaganda, que só queria apresentar a cidade olímpica como um evento de beleza, enquanto que por detrás nós vimos um aumento significativo no número de pessoas mortas pela polícia”.

Essa divisão no país entre aqueles que têm algo e os que têm muito pouco também se traduz em direitos. Mas é possível que uma onda jovem possa mudar o país e seu abismo de desigualdades. Para Atila Roque, a chegada dos movimentos jovens é vista com otimismo para que o país não passe por um retrocesso. “O risco de se perder algumas das conquistas está sempre presente porque como tudo na sociedade, ele mexe com privilégios”, diz.

O Brasil está pronto para combater a violação aos direitos humanos? O que nos falta?
Eu acredito que as sociedades humanas estão sempre prontas para abraçar valores de defesa à vida e garantia à segurança dos direitos de todas as pessoas. É um princípio fundamental do próprio ideário dos direitos humanos: todos somos iguais. Agora, quando você aterrissa na vida real, tem que reconhecer que cada sociedade traz em sua formação fatores que favorecem ou dificultam a agenda dos direitos humanos. No Brasil, tivemos historicamente duas situações que marcaram profundamente o desenho institucional, econômico, político e social do país. Estou falando da escravidão e da concentração de terra na mão de poucos. Quando veio a liberação dos escravos, com a abolição em 1888, isso aconteceu sem a distribuição de terra e de riqueza. A nossa sociedade ficou profundamente marcada pela desigualdade.

Os escravos ganharam a liberdade, mas não as condições para que estivessem em um patamar semelhante aos outros.
Exato. A desigualdade é parte constituinte do DNA nacional. A fundação do Brasil como Estado-nação está ancorada na desigualdade, na violência (porque para instaurar essa desigualdade o Estado teve que fazer uso cotidiano da violência) e na discriminação, em particular do racismo contra os negros. E esses fatores não são periféricos, são estruturantes.

Mas isso não quer dizer que porque eles estão na raiz da formação histórica do país que nós não possamos mudar isso, correto?
Quando você olha para o Brasil, nós partimos de um patamar difícil, há um déficit histórico estrutural de direitos, uma vez que o nosso ponto inicial é a desigualdade, a violência e o racismo. É com esses princípios que a gente tem de lidar para não achar que vai resolver tudo como um passe de mágica. Para te responder eu diria a você: nós somos, sim, vocacionados, nós temos todas as chances como país, temos todos os talentos e o conhecimento para superar essa situação de déficit estrutural de direitos. Esse é meu lado otimista. Pensando nos últimos 40, 50 anos, nós demos passos importantes na direção da superação desses problemas. Passamos pela ditadura, tivemos o processo de transição da ditadura à democracia. E ainda que no campo da segurança pública e da violência não há muito a celebrar, em outras áreas a gente pode dizer que hoje o Brasil está muito melhor equipado para afirmar os direitos do que estava há quatro décadas. A própria Constituição brasileira de 1988 foi capaz e incorporar o marco dos direitos humanos na sua amplitude dos direitos econômicos, sociais, políticos, culturais, ambientais. Então, nessa transição difícil que vivemos como uma sociedade democrática, há algumas conquistas que vale celebrar. Dito isso, não significa que elas estão consolidadas para sempre. Sempre há o risco do retrocesso. O risco de se perder algumas das conquistas está sempre presente porque, como tudo na sociedade, ele mexe com privilégios.

De que maneira?
Para você fazer avançar a agenda dos direitos significa que alguns têm que ganhar direitos e outros têm que perder privilégios. Porque a desigualdade se sustenta na ideia de que uns merecem mais do que outros. É a cultura da desigualdade, que atribui direitos e deveres diferenciados.

E aí entramos na questão de que uns são mais ‘diferenciados’ do que outros…
Isso, entramos na questão da Revolução dos Bichos, do George Orwell, em que somos iguais, só que alguns são mais iguais do que outros. E é contra essa cultura que nós estamos nos insurgindo. Quando eu digo nós, eu falo de todos que têm o compromisso de defender os direitos humanos. E, nesse sentido, os últimos anos foram bem interessantes para o Brasil. Ainda que de maneira precária e muito preliminar, houve um avanço na agenda distributiva, ao levar adiante a ideia de que todos têm que ter acesso a uma renda mínima, um patamar mínimo de vida, ter acesso à universidade. Com isso você criou uma expectativa em parcelas enormes da sociedade que antes estavam excluídas de tudo, até do desejo de ter. Essas pessoas hoje têm a expectativa e a ideia de igualdade dentro delas. É dizer “Eu tenho direito a ter direito”. Isso é muito importante e é muito difícil retroceder a partir daí. Uma vez que você cria o desejo de ter direitos, você pode até retirar esses direitos, mas não vai retirar o desejo. O desejo está constituído, a ideia da igualdade está dada. Nós criamos o desejo e a expectativa da igualdade numa sociedade profundamente desigual, numa sociedade em que ainda vale o “Sabe com quem está falando?”, “Eu sou melhor do que você”, em que um entra pela porta de serviço, outro pela porta social. E aí quando você olha para as diferentes áreas das políticas públicas, isso aparece claramente. É o acesso à escola, a discussão sobre renda e tributação, em que as pessoas mais pobres acabam pagando mais imposto. É nessa sociedade que a agenda dos direitos humanos, a agenda por igualdade, está lutando para ampliar o seu espaço.

A Receita Federal liberou há alguns anos dados que apontavam essa discrepância de que o brasileiro que ganha menos, paga mais imposto.
Pensa o que é que é o sistema tributário brasileiro senão a reafirmação da desigualdade? Quanto mais pobre, mais proporcionalmente você paga de imposto. Quanto mais rico, quanto mais riqueza você tem, menos você paga. Inclusive em relação a transferência dessa riqueza. A taxação sobre herança é muito baixa. Esse é um tema central sobre reforma tributária que a gente não consegue sequer começar a discutir. Virou natural que os pobres paguem mais impostos. Boa parte do Estado é financiada pelos mais pobres, não é pelos mais ricos.

Só que nas discussões em vários grupos e nas redes sociais, o que se diz é o contrário. Já ouvi muita gente dizer “Estou pagando para as pessoas terem filhos”. É possível começar a mudar essa percepção?
Existe uma disponibilidade para mudar, ainda que se manifeste de forma desigual e distorcida. Apesar de o Brasil ser tão desigual, violento e discriminador, ao mesmo tempo você tem um país com muita condição de construção de laços de solidariedade, de compaixão e de empatia. O caminho está por um lado no campo da imaginação, da cultura e da educação, é você reforçar esses valores, reforçar a ideia de que todos somos iguais. Todos deveríamos ter acesso aos bens que garantam uma vida de qualidade. Isso é um lado. O outro é fortalecer a ideia do protagonismo, de que as pessoas sejam cada vez mais agentes ativos da construção de suas vidas. E aí me traz muita esperança olhar a vontade de participação das populações de periferia, da juventude das favelas, que têm chamado cada vez mais para si o direito de levar suas lutas e exigir seus direitos. A mesma coisa eu poderia dizer em relação à renovação do movimento de mulheres, com a incorporação de toda uma geração de meninas que ressignificaram a própria ideia do feminismo. Elas fizeram isso de uma maneira fantástica ao renovar sua mensagem, a capacidade de diálogo com setores mais amplos da sociedade, sem jogar fora o aprendizado e a experiência de suas mães e avós, as lutas históricas do feminismo. Essa movimentação incorpora as agendas recentes das mulheres negras, das mulheres trans, das prostitutas, com discussões que antes não apareciam com força no feminismo histórico. Acho que isso ajuda a trazer esperança de que, sim é possível avançar essa agenda da igualdade, o sentimento mais ou menos adormecido de solidariedade, a consciência de o meu direito nunca vai estar plenamente contemplado enquanto tiver uma pessoa ao meu lado, uma pessoa no mundo em que eu vivo, com seu direito violado. E no nosso país, ainda temos um déficit gigantesco quando se fala em direitos. Quando você olha para a agenda da violência, da segurança pública, dos homicídios, são áreas em que a distância a percorrer ainda é muito grande. São áreas muito duras, a resistência é muito maior e toca em preconceitos muito arraigados.

Olhando as pesquisas eleitorais, a questão da segurança sempre aparece no topo das aspirações dos eleitores. Tenho a impressão que existe um abismo enorme em relação ao que a população enxerga como segurança e o que os candidatos entendem e como pensam em cuidar dessa questão, se forem eleitos. O discurso do “bandido bom é bandido morto” tem se propagado nas campanhas e nas redes, sem o menor pudor.
É perfeitamente compreensível e legítimo que o tema da segurança apareça com tanta força nas pesquisas. A segurança é um anseio natural de todas as pessoas que estão no mundo. Todos querem ter a possibilidade de desenvolver o seu potencial, sem serem constrangidos por nenhum tipo de risco à vida, à sua integridade física e à sua possibilidade de viver em um determinado lugar de forma plena. Segurança é um direito fundamental – não importa onde você viva, a cor da sua pele ou a idade. O que acontece quando isso é apropriado pelo discurso político ou mesmo pelas políticas do Estado é que esse anseio legítimo é reduzido a uma questão de polícia. E ao ser reduzido a uma questão policial, ele acaba sendo submetido ao marco de como a polícia é tratada no Brasil. Ela é orientada para a repressão dos pobres, dos pretos, dos jovens da favela. É uma polícia altamente seletiva, militarizada e violenta, que acaba gerando mais insegurança. Esse encolhimento explica, em parte, a constante frustração que acomete as pessoas, que vivem entre querer mais segurança e não ter seu anseio reconhecido, e o discurso demagógico que oferece soluções simplistas e equivocadas que acabam agravando a insegurança. A resposta, para eles, é flexibilizar o Estatuto do Desarmamento, armar a população, armar ainda mais a polícia, há até uma discussão para armar a Guarda Civil Municipal (GCM). Na verdade, esses exemplos todos são formas de agravar e não diminuir a violência. Nós deveríamos estar discutindo menos armas na mão da população. E refletir sobre o lugar da polícia e o uso da força. Ao focar em uma perspectiva militarizada, você deixa de lado todo o potencial de integração das diferentes instâncias do Estado, de uso inteligente da repressão, que não seja aumentando a violência.

Quais seriam as alternativas para mudar esse perfil militarizado e, ao mesmo tempo, garantindo a segurança da população?
O policiamento ostensivo, em grande medida, poderia ser desarmado, desde que você fizesse um uso tecnológico e de unidades especializadas para aquelas situações raras em que o uso da força se faz necessário. Você precisa ter unidades de resposta rápida localizadas em algum dos pontos da cidade que, se convocadas, podem chegar em 5, 10 minutos ao local da ocorrência. Você não precisa ter todo mundo armado. Para quê? Para sacar e atirar no menino que rouba celular e sai correndo? Não adianta. O policial desarmado e treinado ao ver alguém roubando um celular, por exemplo, pode acionar pelo smartphone ou pelo rádio o outro policial desarmado que está na esquina seguinte, e que rapidamente poderá intervir. A arma na mão desse policial não vai ajudar em nada, só vai aumentar o risco para todos os envolvidos.

Há pouco você disse que a polícia é altamente seletiva. Nessa lógica militarizada, que se aplica nas UPPs e na periferia de São Paulo, podemos entender que na “guerra” contra a violência, a polícia tem um alvo?
A polícia adota uma lógica da guerra, do confronto e da eliminação de um suposto inimigo. Só que esse inimigo em geral tem perfil territorial, ele tem um perfil de cor, raça e de sexo. O que nós estamos dizendo é que algumas pessoas são matáveis.  Quem são essas pessoas: mais de 50% são jovens, e dentre esses, mais de 80% são negros e pardos. É uma tragédia. Pense nesse universo de mais de 30 mil jovens que morrem todos os anos, é como se nós derrubássemos um desses aviões que faz a ponte aérea Rio-São Paulo a cada dois dias – cheio de jovens. É isso que está acontecendo diante dos nossos olhos. E uma parte grande dessas mortes é causada por policiais.

No documento entregue pela Anistia às autoridades do Rio, os dados de homicídios levantados apontam que uma em cada cinco mortes envolveu policiais, não é isso?
No Rio de Janeiro, é isso. Um a cada cinco homicídios foi causado por policiais em serviço e em situações que foram consideradas legítimas. Na verdade, o número é maior do que isso.

Em São Paulo, aponta-se que os números de homicídios foram subestimados.
É uma questão fundamental, estamos falando da vida de uma parcela enorme da nossa juventude que está sendo desperdiçada de maneira bruta, gerando uma dor incomensurável em familiares, mães, irmãs e amigos. Comunidades inteiras estão vendo sua perspectiva de desenvolvimento local e promoção econômica comprometidos por essa violência. Então isso tudo deveria ser objeto não só de uma política de Estado de longo prazo, de promoção do desenvolvimento pessoal, é disso que a gente fala, a segurança vista como uma política pública integrada com outras políticas, não apenas uma questão de polícia e de guerra, mas mais do que isso, como uma questão emergencial porque é preciso interromper esse ciclo de morte. Nós precisamos de um plano, de um pacto nacional com metas de redução de homicídios. Isso é possível? Sim. A Colômbia é um exemplo. Num curto espaço de tempo, um país recortado por uma quantidade enorme de conflitos conseguiu se transformar ao tornar essa agenda uma prioridade do Estado. Mas é preciso querer. É preciso que a sociedade e o Estado acordem para essa realidade, já passou da hora.

A sociedade tem se mostrado muito indiferente às denúncias de violência?
Tudo isso que está acontecendo tem um grande grau de consentimento da sociedade. A sociedade está olhando para o outro lado. Uma vez eu me referi à questão como uma espécie de “epidemia de indiferença”. E quando digo sociedade, não é somente o cidadão comum, mas também as pessoas que têm influência na sociedade. Nós hoje estamos no patamar de quase 60 mil homicídios por ano. No Brasil, morre-se o mesmo tanto que se registrou em todos os anos da Guerra do Vietnã. E aí eu pergunto: mas como isso pode acontecer justamente nos 30 anos em que a gente mais avançou em conquistas sociais, redução do déficit de desigualdade, maior oferta em saúde e educação? Por que isso não escandaliza a sociedade? Por que isso não vira uma prioridade efetiva do Estado? Por que é que isso ainda não virou um pacto nacional pela redução dos homicídios? Nós tentamos em vários momentos, com governos diferentes, e agora de novo com o atual governo, sem sucesso. Isso não é prioridade. Prioridade é armar mais a polícia, aumentar o patamar da repressão. Essa é uma pergunta que toda a imprensa, todos os órgãos públicos, todas as pessoas de influência deveriam estar colocando em debate. Assim como, em um certo momento da história do país, fizemos essa pergunta em relação à fome. Não vamos esquecer que em meados da década de 1990, depois do Movimento Pró-Ético na Política, o Betinho de Souza, irmão do Henfil, fez a pergunta fundamental: “Por que as pessoas vão dormir todo dia com fome?” E aí se fez aquela belíssima movimentação nacional que acabou agendando o tema da fome e da miséria absoluta como prioridade nacional. E daí vieram todas as coisas que conhecemos, desde os projetos de Fernando Henrique, associando inclusão e educação, até o Fome Zero e o Bolsa Família dos governos Lula e Dilma. Mas foi preciso uma enorme mobilização da mídia e da sociedade para colocar a agenda de que ter 30 milhões de pessoas com fome não é admissível, vamos enfrentar isso. E nós temos a mesma situação com homicídios. Temos uma epidemia de homicídios e de indiferença.

Em um momento político como o que estamos atravessando, não corremos o risco de que essa discussão vá parar novamente no fim da fila?
Sim, na medida em que você adota uma perspectiva redutora de direitos, que foca em uma política social muito excludente e ajuste fiscal que não leva em conta o padrão desigual em relação a quem acessa serviço de bens e direitos. É muito preocupante e acho que isso vai gerar mobilização por parte de alguns setores brasileiros. E não está só se falando na redução de direitos, já está se implementando.

É quase como se nós estivéssemos em um daqueles jogos de tabuleiro, você volta três casas e avança uma…
Nós já voltamos algumas casas. A questão é saber em que momento e como a sociedade vai reagir e colocar essa discussão na agenda pública. Nós estamos vivendo um momento em que o Estado brasileiro tem um baixo padrão de legitimidade e representação. As pessoas não se reconhecem nele. Não se reconhecem no Congresso porque o Congresso hoje é composto fundamentalmente por uma população que não retrata aqueles que deveria representar. É um Congresso masculino, branco, de pessoas ricas. Temos um governo federal com baixa legitimidade, porque é um governo que não foi eleito. Ele se constituiu após o processo de impeachment, que é uma ruptura. E em situações como essa temos o momento ideal para o avanço das forças do atraso. É nessas horas que a vanguarda do atraso progride, vamos dizer assim, porque ela tem poder e encontra brechas, controla todos os recursos, sempre foi assim na história do Brasil. Ao tentar fazer retroceder aquele movimento pela igualdade, isso vai causar tensão.

E isso acaba se traduzindo que nos protestos aos quais estamos assistindo. Na sua visão, os governos têm feito uso da chamada força excessiva ao contrário do que dizem? Creio que em uma outra entrevista, você chegou a dizer que mesmo que os protestos fossem mais violentos, coisa que não está acontecendo, a reação do sistema de segurança ainda assim deveria ser diferente.
A polícia tem agido como um fator provocador da violência. Essa é a verdade, é isso que nós temos documentado e visto acontecer nos protestos. A polícia não atua como processo de pacificação, como fator garantidor da segurança de todos que querem protestar. Agora, mesmo naquela situação que eventualmente justificaria algum grau de repressão, para garantir o direito de todos a protestar, a polícia deveria fazer uso de forma gradual, cuidadosa e focalizada, muito ao contrário do que temos visto. A polícia parte do ponto de que aquele protesto tem que ser desmontado e já faz uso da força com o grau máximo. O famoso uso gradual da força é um conceito que parece ter sido riscado do manual das polícias no Brasil, em particular de São Paulo e no Rio de Janeiro.

Olhando para o lado positivo e pensando no protagonismo jovem que você citou há pouco, o que falta para que esse movimento ganhe uma escala realmente nacional e que, juntamente com instituições mais tradicionais, possa ajudar a reverter essa situação e dar espaço a uma nova maneira de ver as coisas, uma maneira diferente de pensar o Brasil?
Nós temos que fortalecer na sociedade a disposição para que essas vozes sejam ouvidas na sua diversidade. Isso vale para o Estado, mas vale também para a sociedade. Nós precisamos aprimorar nossas habilidades, como sociedade, como instituição, de escuta. O Congresso e o Estado, em grande medida, têm se feito de surdos a essas demandas e na sociedade, infelizmente, prolifera muitas vezes as falas autocentradas, pessoas que olham somente para o lugar onde vivem – sem escutar os demais. Isso acaba fortalecendo o preconceito, fundamentalismo, polarizações. O direito fundamental à fala, à manifestação, ao protesto, à liberdade de expressão são a base de um ambiente mais propício à escuta e, portanto, ao avanço de agendas e acordos. O que a gente precisa é construir pontes na sociedade em torno dos acordos básicos para superar a desigualdade, lutar juntos contra a violência, diminuir esse patamar absurdo de homicídios, garantir que todos os direitos das pessoas sejam ampliados e não reduzidos. Levantar as cortinas de fumaça que impedem as pessoas de olhar para o que realmente importa, como os 60 mil homicídios por ano. Mas para criar esses acordos que vão além das particularidades, é importante criar canais para que as pessoas possam falar e se escutar.

Ou seja, estamos falando de um país com mais direitos, talvez mais deveres, e certamente muito menos privilégios.
A ideia da cidadania é um compromisso de todos com todos. O meu direito está ligado ao direito da outra pessoa, portanto ele vem acompanhado de deveres. Não essa visão moralista de deveres, mas uma coisa mais lúdica. O meu destino está intrinsecamente ligado ao destino do outro. E o nosso destino como sociedade só vai avançar se a gente superar as desigualdades, a violência e o racismo.