Infância na rua

Arquivo pessoal. Rua Barão, Praça Seca, Rio de Janeiro

Tenho memórias vívidas da rua, desde a idade mais precoce. Aprendi cedo a amar suas texturas, sons e cheiros. Mas isso nunca foi um talento natural ou uma vocação inata. Na infância a rua era um lugar de brincadeiras onde no início não estive completamente à vontade. Tinha medo dos outros meninos, não gostava de brigar, não era bom de bola e tinha uma timidez paralisante. Aos olhos dos outros meninos devia ser considerado um frouxo.

Mas gostava muito de brincar e não faltavam brincadeiras criativas naquela época. Pilotei, por exemplo, muito pneu velho pelas calçadas, joguei pião e brinquei de taco. E fui imbatível na bola de gude, chegando a amealhar uma coleção invejável conquistada nas disputas à vera nas calçadas e descampados das redondezas. Carregava com orgulho meu saco de bolas de gude bem amarrado à cintura — as de estimação cuidadosamente separadas no bolso ou na mão — como se fosse um recipiente cheio de cabeças recolhidas em uma batalha imaginária contra outras tribos. Era mesmo impiedoso nas partidas e cansei de deixar coleguinhas na lona, ou seja, com seus respectivos sacos vazios.

Mas apesar da ausência de talento natural para a vida selvagem das ruas, aprendi a me virar, violentando minha natureza recatada. Tentava ser forte, ganhar casca, aprender a controlar o frio na espinha, fingir que estava enturmado. Levei um tempo para conquistar o meu lugar e a minha turma na rua.

Fui uma criança de poucos amigos. O filho do açougueiro, vizinho do sobrado onde eu morava, era um deles. Um outro era o melhor amigo da escola primária. Com eles gostava de soltar pipa, subir em árvores e correr feito um desatinado. Quando começou a obra de saneamento e calçamento da nossa rua a minha diversão era brincar dentro das enormes manilhas, escorregar pelos barrancos de lama e barro, pular entre vergalhões de ferro. Aquilo devia ser muito perigoso, mas eu tinha uma atração irresistível por tudo que oferecia risco. Era um louco na bicicleta, desatinava ladeiras abaixo em carrinhos de rolimã, era o mais rápido no pique-pega, na corrida pelos muros e no balançar pelos galhos das árvores. Até agarrar em traseira do caminhão que descia a ladeira agarrava. Era sempre o mais imprudente de todos, como se tivesse uma proteção permanente. Dei trabalho ao meus santos e anjos protetores. Devo ter tido uma verdadeira brigada de proteção permanentemente destacada para me amparar, mesmo sem crer. Nunca quebrei um osso, embora traga uma coleção de responsa que inclui ralados diversos, cortes e perfurações, contusões e outras marcas pelo corpo.

Custei a aprender a me defender, não sem antes passar por muita humilhação e esculacho, especialmente dos garotos mais velhos. Mas aprendi. Passei a brigar na rua, rolar na terra, brigas até com hora marcada, na saída da escola, compromissos assumidos durante as desavenças em sala de aula ou no recreio. Era pontual no comparecimento a essas rusgas. Tinha resolvido não levar desaforo pra casa. E muitas vezes defendi os mais fracos das maldades dos mais fortes. Quase nunca chorava, nem quando recém nascido. Raramente chorei de dor, embora tenha tido vontade de chorar de tristeza ou melancolia. Aprendi a prender o choro e a esconder a tristeza.

Passados tantos anos dessa infância na rua, vejo que o riso sempre me foi mais fácil e solto. O humor e uma dose de auto ironia ajudou a superar a barreira da timidez e a enfrentar as situações difíceis. Gosto de rir com amigos, falar besteira, tentar não levar a vida tão a sério e viver um pouco mais leve. Um exercício que fica mais difícil a medida em que envelhecemos. Talvez por isso seja tão importante guardarmos as boas lembranças da infância e, sempre que possível, esquecer as más, ou melhor, deixá-las como reserva extraordinária de força, sempre que tivermos a impressão de que não vamos aguentar o Brasil. Como agora.

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Memórias suburbanas

Detesto dia chuvoso e cinza quando estou meio triste. Encolho, silencio, tenho que lutar para reagir e seguir em frente, escapar de mim mesmo, coisa difícil, mas não completamente impossível, diz-se. Busco lembranças. Não é que não goste da chuva e do frio, mas apenas quando estou descansado, leve e alegre. Esses dias sim, trazem lembranças de banhos de chuva misturado com a lama do barro da rua Barão, na Praça Seca. Sinto saudades do barro. E também das montanhas de pó de pedra de uma pedreira que existia praticamente ao lado da casa dos meus avós no Pau Ferro, em Jacarepaguá. Foi lá que conheci minha bisavó, “vó Baldina”, a única viva que tive. Digo, bisavó, pois avós conheci todas e a última se foi muito recente, já do alto dos seus 105 anos. “Vó Dete”, Odete, filha da Baldina. Ela era quem fazia o frango ao molho pardo mais gostoso da minha vida. Hoje, onde era a casa antiga e muito simples dos meus avós, a pedreira e o enorme quintal, sobraram apenas os condomínios de casas horríveis e iguais: foram-se os pés de cana, as goiabeiras, o pé de jambo e tudo o mais. Dessa época não tenho fotos. Fotografia era algo muito caro na minha infância, apenas para nascimentos e casamentos, com fotos posadas. Meus avós moraram naquela casa em um tempo em que aquela parte de Jacarepaguá era praticamente rural. Criavam muitos bichos, alguns para comer no Natal, como o caso dos porcos e perus, outros mais triviais para servir aos domingos, como as galinhas. Eu os via meus matando porcos e galinhas. Nunca me acostumei com os gritos dos porcos, mas nunca me furtei a saboreá-los quando servidos. Um dia chegou a especulação imobiliária e, com ela, um dono do terreno que meus avós sempre acharam e cuidaram como se deles fosse. A justiça disse que não e, assim, de uma hora para outra, ficaram sem teto. Vieram morar com a nossa família, em Bento Ribeiro. Mas nunca vou esquecer aquela infância cercada de tios e primos, travessuras, sabores, árvores e bichos. Uma infância que teve chifrada de bode, tombo de barranco, queda de árvore e surra de vara de goiabeira. Sinto saudade até das surras, merecidas e, efetivamente, nunca aplicadas de fato, pois eu sempre corria bem mais do que o meu avô, piauiense arretado, contador de causos do sertão, dizia ter feito parte da busca a Lampião, protetor das árvores e das goiabas verdes que o neto teimava em arrancar. E lá vinha ele com a vara, acertava as pernas, enquanto o moleque-neto descia da árvore e ganhava velocidade pra longe, bem longe dele. Voltava somente quando tudo já estava calmo. E ele já disposto a me contar outro caso de Lampião. Lamento demais que meus filhos nunca experimentaram nada disso, crianças urbanas e de classe média . Sei que tem outras coisa, não sou saudosista, mas gosto de cuidar das memórias, acumulando os pedaços que sobram, fotos, cartas, anotações. E de vez em quando contando para não esquecer. Também tive um avô chamado Pinto, vô pinto – sem trocadilhos infames, por favor – que além de muitas filhas, tinha também um circo, outra parte da minha infância que parece até que foi sonhada, na Praça Seca, cercada de palhaços medonhos, calhambeques que se desmontavam em cena e globo da morte. Mas essa é outra história…