Memórias suburbanas

Detesto dia chuvoso e cinza quando estou meio triste. Encolho, silencio, tenho que lutar para reagir e seguir em frente, escapar de mim mesmo, coisa difícil, mas não completamente impossível, diz-se. Busco lembranças. Não é que não goste da chuva e do frio, mas apenas quando estou descansado, leve e alegre. Esses dias sim, trazem lembranças de banhos de chuva misturado com a lama do barro da rua Barão, na Praça Seca. Sinto saudades do barro. E também das montanhas de pó de pedra de uma pedreira que existia praticamente ao lado da casa dos meus avós no Pau Ferro, em Jacarepaguá. Foi lá que conheci minha bisavó, “vó Baldina”, a única viva que tive. Digo, bisavó, pois avós conheci todas e a última se foi muito recente, já do alto dos seus 105 anos. “Vó Dete”, Odete, filha da Baldina. Ela era quem fazia o frango ao molho pardo mais gostoso da minha vida. Hoje, onde era a casa antiga e muito simples dos meus avós, a pedreira e o enorme quintal, sobraram apenas os condomínios de casas horríveis e iguais: foram-se os pés de cana, as goiabeiras, o pé de jambo e tudo o mais. Dessa época não tenho fotos. Fotografia era algo muito caro na minha infância, apenas para nascimentos e casamentos, com fotos posadas. Meus avós moraram naquela casa em um tempo em que aquela parte de Jacarepaguá era praticamente rural. Criavam muitos bichos, alguns para comer no Natal, como o caso dos porcos e perus, outros mais triviais para servir aos domingos, como as galinhas. Eu os via meus matando porcos e galinhas. Nunca me acostumei com os gritos dos porcos, mas nunca me furtei a saboreá-los quando servidos. Um dia chegou a especulação imobiliária e, com ela, um dono do terreno que meus avós sempre acharam e cuidaram como se deles fosse. A justiça disse que não e, assim, de uma hora para outra, ficaram sem teto. Vieram morar com a nossa família, em Bento Ribeiro. Mas nunca vou esquecer aquela infância cercada de tios e primos, travessuras, sabores, árvores e bichos. Uma infância que teve chifrada de bode, tombo de barranco, queda de árvore e surra de vara de goiabeira. Sinto saudade até das surras, merecidas e, efetivamente, nunca aplicadas de fato, pois eu sempre corria bem mais do que o meu avô, piauiense arretado, contador de causos do sertão, dizia ter feito parte da busca a Lampião, protetor das árvores e das goiabas verdes que o neto teimava em arrancar. E lá vinha ele com a vara, acertava as pernas, enquanto o moleque-neto descia da árvore e ganhava velocidade pra longe, bem longe dele. Voltava somente quando tudo já estava calmo. E ele já disposto a me contar outro caso de Lampião. Lamento demais que meus filhos nunca experimentaram nada disso, crianças urbanas e de classe média . Sei que tem outras coisa, não sou saudosista, mas gosto de cuidar das memórias, acumulando os pedaços que sobram, fotos, cartas, anotações. E de vez em quando contando para não esquecer. Também tive um avô chamado Pinto, vô pinto – sem trocadilhos infames, por favor – que além de muitas filhas, tinha também um circo, outra parte da minha infância que parece até que foi sonhada, na Praça Seca, cercada de palhaços medonhos, calhambeques que se desmontavam em cena e globo da morte. Mas essa é outra história…

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A incrível história dos dentes voadores

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Uma amiga lembrou, em comentário no Facebook, um episódio nosso ocorrido em um voo pra Tailândia. E como um fio de memória puxa outro, a história me trouxe outra lembrança de viagem. Já contei em post no Face, mas resolvi deixar registrado também no blog já que, quem sabe, pode acabar virando uma série. Bem, vamos lá:

Vou contar, acredite se quiser, mas juro que aconteceu. Em voos sempre escolho corredor, detesto ficar “preso” na janela. Então, uma vez, em um voo muito longo, Frankfurt-Kuala Lumpur, classe econômica, sentou-se ao meu lado uma senhora, bem velhinha, com aquele sorriso simpático das velhinhas hindus, vestida lindamente com muitas camadas de panos coloridos, mas que não falava uma palavrinha sequer de ingles ou qualquer outro idioma que eu reconhecesse. Depois de algumas mesuras e sorrisos ela tirou da bolsa um bilhete que dizia mais ou menos o seguinte: “Essa senhora é minha tia e se chama XXX (não lembro, lógico), não fala nenhuma palavra de ingles, é diabética, nunca andou de avião e não pode de maneira alguma tomar nada com açúcar. Por favor ajude. Obrigado”. Pronto, foi assim que fui instantaneamente transformado em cuidador e fiscal da senhora pelas próximas 16 horas de voo, alertando aos comissários, fiscalizando a comida, ajudando a levantar e levar ao banheiro. Nada de dormir ou ouvir música como gosto por horas seguidas em viagens longas. E ela sempre sorrindo muito, com muitas mesuras, em agradecimento. E eu sorrindo de volta. Mas não acabou. Eis que no meio da madrugada aérea, a senhorinha começa a se mexer, buscar alguma coisa aqui e ali, levantar os panos, olhar o banco, o chão. Vendo a agonia, através de mímicas, tentei descobrir o que ela procurava. E descobri quando ela, singelamente, apontou para a própria boca e – pronto – cadê o sorriso? Não pergunte como, nunca soube, mas ela tinha perdido a dentadura. O fato é que, de repente, lá estava eu, engatinhando pelo corredor do avião procurando a dentadura. E fui encontrar, sei lá como, uns três ou quatro assentos adiante, embaixo dos pés de um alemão mal encarado e sonolento. Expliquei delicadamente, em ingles, que precisava recolher, juntos aos seus pés, os dentes da senhora (e tive que apelar para criatividade, já que não sabia falar “dentadura” em alemão e ele também não falava inglês). Mas o alemão, educadamente – muito espantado com a cena – deixou que eu pegasse, com um providencial guardanapo, o artefato tão essencial. Nunca vi ninguém agradecer tanto quanto aquela senhora no momento em que trouxe de volta o seu sorriso e a ajudei a ir ao banheiro lavar e recolocar no lugar. Sorte minha, ela foi sorrindo até o final da viagem que, felizmente, já estava acabando … pra ela. Eu ainda tinha uma conexão para Penang. Mas essa é outra história…