A incrível história dos dentes voadores

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Uma amiga lembrou, em comentário no Facebook, um episódio nosso ocorrido em um voo pra Tailândia. E como um fio de memória puxa outro, a história me trouxe outra lembrança de viagem. Já contei em post no Face, mas resolvi deixar registrado também no blog já que, quem sabe, pode acabar virando uma série. Bem, vamos lá:

Vou contar, acredite se quiser, mas juro que aconteceu. Em voos sempre escolho corredor, detesto ficar “preso” na janela. Então, uma vez, em um voo muito longo, Frankfurt-Kuala Lumpur, classe econômica, sentou-se ao meu lado uma senhora, bem velhinha, com aquele sorriso simpático das velhinhas hindus, vestida lindamente com muitas camadas de panos coloridos, mas que não falava uma palavrinha sequer de ingles ou qualquer outro idioma que eu reconhecesse. Depois de algumas mesuras e sorrisos ela tirou da bolsa um bilhete que dizia mais ou menos o seguinte: “Essa senhora é minha tia e se chama XXX (não lembro, lógico), não fala nenhuma palavra de ingles, é diabética, nunca andou de avião e não pode de maneira alguma tomar nada com açúcar. Por favor ajude. Obrigado”. Pronto, foi assim que fui instantaneamente transformado em cuidador e fiscal da senhora pelas próximas 16 horas de voo, alertando aos comissários, fiscalizando a comida, ajudando a levantar e levar ao banheiro. Nada de dormir ou ouvir música como gosto por horas seguidas em viagens longas. E ela sempre sorrindo muito, com muitas mesuras, em agradecimento. E eu sorrindo de volta. Mas não acabou. Eis que no meio da madrugada aérea, a senhorinha começa a se mexer, buscar alguma coisa aqui e ali, levantar os panos, olhar o banco, o chão. Vendo a agonia, através de mímicas, tentei descobrir o que ela procurava. E descobri quando ela, singelamente, apontou para a própria boca e – pronto – cadê o sorriso? Não pergunte como, nunca soube, mas ela tinha perdido a dentadura. O fato é que, de repente, lá estava eu, engatinhando pelo corredor do avião procurando a dentadura. E fui encontrar, sei lá como, uns três ou quatro assentos adiante, embaixo dos pés de um alemão mal encarado e sonolento. Expliquei delicadamente, em ingles, que precisava recolher, juntos aos seus pés, os dentes da senhora (e tive que apelar para criatividade, já que não sabia falar “dentadura” em alemão e ele também não falava inglês). Mas o alemão, educadamente – muito espantado com a cena – deixou que eu pegasse, com um providencial guardanapo, o artefato tão essencial. Nunca vi ninguém agradecer tanto quanto aquela senhora no momento em que trouxe de volta o seu sorriso e a ajudei a ir ao banheiro lavar e recolocar no lugar. Sorte minha, ela foi sorrindo até o final da viagem que, felizmente, já estava acabando … pra ela. Eu ainda tinha uma conexão para Penang. Mas essa é outra história…

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Autor: Atila Roque

Historiador e Cientista Político

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