O dia seguinte

Vivemos tempos em que a sensação é de desastre. Independentemente do que os próximos dias nos trará em relação ao desdobramento das investigações, especialmente aquelas que atingem tão diretamente o presidente Lula – e que vem desencadeando um dos espetáculos mediáticos mais lamentáveis dos últimos tempos, quase sem precedentes na história do Brasil, com o único paralelo na crise que antecedeu o suicídio de Vargas — chegou a hora de pensarmos no “dia seguinte”. Como vamos reconstruir o sistema político de maneira que corresponda aos desafios que temos pela frente?

Não consigo ver outra saída que não seja por uma articulação generosa e ampla a partir da sociedade civil.

Isso não vai ser fácil, os ânimos e as paixões estão alterados e as feridas muito vivas, em carne viva mesmo. Mas não temos tempo. Ou seremos capazes disso ou estaremos em breve diante de uma situação ainda mais trágica, terra arrasada, pós terremoto político, com abutres e aves de rapina fazendo o que sempre souberam fazer na história do Brasil, consolidar os seus privilégios de classe.

Mas dessa vez isso acontece através da destruição – com a responsabilidade principal daqueles que traíram princípios e resolveram se locupletar na geleia geral que sempre confundiu os interesses privados com os públicos – da delicada arquitetura de direitos construída (mesmo que não implementada plenamente) ao longo de nossa transição para a democracia. Também não devemos minimizar a responsabilidade das próprias forças políticas progressistas da sociedade civil que se deixaram capturar e domesticar ao longo da era Lula, esquecendo que com isso minavam o que tínhamos de melhor, independência e capacidade crítica, e que agora tanto nos faz falta. Desaprendemos a pensar com as nossas próprias cabeças, esquecemos as lições de nossa própria história de luta pela democracia.

No entanto, o momento requer que sejamos capazes de superar nossas feridas e mágoas. Deixemos de nos pautar pelo ódio, justificado ou não, contra quem quer que seja que cada um de nós identifica como a “encarnação do mal” — petralhas, tucanos, coxinhas, mídia golpista, seja eles quem forem, afinal todos nós temos e não temos razão em nossos ódios – e foquemos na tarefa de reconstrução que temos pela frente. E para isso a sociedade civil, através das suas lideranças de todas as frentes, precisa deslanchar um processo de reconstrução da cidadania ativa, capaz de defender direitos tão duramente conquistados.

Para levarmos à frente esse desafio estou convencido que a cultura é fundamental. Sem ela não seremos capazes de desejar, imaginar e lutar por um outro mundo, um outro país, uma outra política. Mais do que nunca sonhar é preciso.

Precisamos, coletivamente, romper o ciclo de giz dentro do qual nós deixamos aprisionar. Passou o momento da defesa desse ou daquele personagem, mesmo sendo impossível não se indignar, desesperar e decepcionar com o tamanho e o peso dos escândalos. É hora de somarmos nossas forças bem acima dos nossos interesses e crenças específicas.

Um esforço dessa natureza não será fácil e não  tenho a resposta mágica sobre como começar. Mas sei que não passa pelos partidos, nem pelo estado. Esse seguirão a rota da destruição mútua. Somos nós – em nossa diversidade de classe, gênero, raça e território – que precisamos nos fazer ouvir acima de tanto som e fúria ao nosso redor.

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Autor: Atila Roque

Historiador e Cientista Político

6 comentários em “O dia seguinte”

  1. Átila querido
    Que bom ler pensamentos tão lúcidos e imparciais!
    Estou precisando demais ler e ouvir este tipo de análise e que falta me faz o Ibase e Betinho nessas horas!
    Admiro demais o seu trabalho na AI. Qualquer hora vou te visitar.
    Bjs
    Nubia

    Curtido por 1 pessoa

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